domingo, 18 de abril de 2010

MORRO DO BUMBA


Como pobre não entrega os pontos, sempre dar um jeito
Vive esquecido na favela,fibra nunca lhe falta
Acostumado em toda inundação perder algo com dó no peito
Pior é ser morador de rua,já que ninguém lhe encara e o abandono assalta

A dor maior é trabalhar , não ser vagabundo
E pelo poder público ser ignorado
Em cada desabamento ter que a vida recomeçar mesmo com medo profundo
Perder toda estrutura física construída ao longo da vida inteira do que foi amealhado

Perder entes queridos é muita dor que não cabe em si
E não dar pra aceitar com naturalidade
Corpos mortos soterrados e desaparecidos daí
Perder a família na tragédia quando o morro veio abaixo é perder a sanidade

O que dói mais quando se perde tudo é ouvir das autoridades
Depois que a tragédia acontece
Que por ser morador do Morro do Bumba é teimoso e sem responsabilidades
Insistir em morar na encosta perigosa como se alguma proteção lhe desse
O Morro do Bumba virou cemitério por falta de prioridade

(Fátima Guimarães)

SALVADOR,MINHA TERRA NATAL


Salvador , cidade que nasci e me criei
Plantada sobre a monhanha e penetrada pelo mar
Esta cidade de todos os santos sempre amei
Tem muito a oferecer desde o dia raiar
No batuque do samba de roda e afoxé sempre me dei

Em todas as muitas cidade que morei
Eu a revi num detalhe de beleza
Já que é a mais antiga capital do país é digna de rei
Ostenta muita beleza na natureza

Terra mestiça com todos os coloridos do moreno
Todas as nuanças entre o branco e o negro fez a beleza ir além
Mulatas de cintura de vespa de onduloso andar pleno
Mostram o que é que a baiana tem

O povo baiano é diferente
Antes de ser brasileiro é baiano por convicção
Tem sua individualidade inerente
Pela Bahia ser um polo de cultura de diversão

Em todas cidades que andei
Nenhuma vi tão bela e misteriosa como Salvador
Ao ouvir os atabaques e canções de saudade me flagrei
Resolvi que nela quero morrer quando chegar meu dia devastador

No Brasil o baiano não é perdoado
Por se destacar fora da Bahia á beça
É difícil baiano não sobressair e ser reparado
Quase impossível mesmo que isso aconteça

O baiano é reconhecido em qualquer lugar que vasculho
Seja pelo seu jeito,pela fala e pelo humor
O povo baiano preservou seus costumes com orgulho
Seus hábitos e vocabulário próprio o distingue sim-senhor


Os maus poetas vindos de fora
A cantaram sem a entender
E cineastas a fotografaram sem a sentir embora
Os grã-finos a compraram sem a conhecer

E a todos Salvador resistiu e persiste a cada geração
Para todos capazes de compreendê-la
Onde tudo corre sem pressa e tudo se festeja sem razão
Mas fica impossível não amar sem vê-la

(Fátima Guimarães)

domingo, 28 de março de 2010

CASA DE AVÓS



Na casa de meus avós fazíamos as refeições
Na varanda a sombra de uma árvore frondosa
A comida farta feita no fogão a lenha selavam corações
Exalava a comida um cheirinho bom no ar atraindo gente gulosa

Em torno da mesa dava-se a arte do encontro em família
A comida tocava a alma e comer passou a ser um exercício de amor
Comer acolhia todos como um abraço acaricia
A comida era um dos prazeres da vida que davam tanto sabor

Minhas tias-avós faziam bordados tão delicados
Caprichavam fazendo panos de prato com crochê na ponta
O bordado foi o alicerce na vida delas pelos inúmeros agrados
No fim do dia elas se despediam com um dedo de prosa e como isso conta!

(Fátima Guimarães)

VASCULHEI O BAÚ DOS MEUS SONHOS





O cantinho escondido onde depositei os sonhos não realizados
Se transformou com o tempo no baú de renúncias mas não esqueci
Minha vida passou entulhada de desejos vivos e mortos guardados
Em parte por todos me jogarem pedras no precipício me atirei e sofri

Vasculhei o baú dos meus sonhos com esperança
Para ressuscitar um sonho há muito moribundo parti
Me recuso a deixar morrer esse sonho antigo de criança
E vou correr atrás mesmo que ninguém me estenda a mão aqui

Já não consigo mais contar quanta incompreensão
E quantos desenganos sofri
E se hoje me acham bem diferente e digna de admiração
Falo que nem eu me reconheci...


(Fátima Guimarães)

quinta-feira, 18 de março de 2010

REDE PREGUIÇOSA



A rede acompanha minha vida inteira
É leito onde procuro repouso,melhor não há
Meu corpo do jeito que deito se amolda na canseira
Durmo no balanço de lá e de lá pra cá

Na rede preguiçosa me sinto relaxada
Aproveito para passar a sesta e descansar
E retomar após a lida diária da paz que tudo invada
Já que tudo tem hora de acabar

Quando chega a hora de largar a rede
Tudo desestressa e corre bem devagar
É o jeito baiano que a vida concede
De viver o dolce far niente e o bom da vida não estragar


(Fátima Guimarães)

FANTASMA VIVO NA MEMÓRIA



Estou só,sofro calada mas não esqueço
Nada de apostar em alguém do passado
Tudo continuaria a ser igual desde o começo
É tempo de se despedir do antigo e terminado

A perda de um sonho dói e muito a perda de um amor
Pra que lembrar o que não tive
Se tudo só me lembra indiferença e dor
Amei e dei mais amor do que tinha ,o medo não contive

O resultado é um amor mal resolvido
Que sobrevive como fantasma vivo na memória
E que sempre aparece com medo de ressuscitar o vivido
Não quero mais dar abrigo a quem me fez sofrer em toda trajetória

(Fátima Guimarães)

terça-feira, 9 de março de 2010

AMO A VIDA


Ao suicídio não me atrevo
Suicidam-se só quem desprezam a si
Não sou louca e nada devo
Vejo o suicida como covarde e aí

Só partirei quando Deus chamar a mim
E der o Seu consentimento
Minha existência nunca foi um fardo ruim
E jamais pretendi antecipar a morte em algum momento

Sempre me mantive de pé em noites sem estrelas
Nunca fugir dos golpes da sorte
Nem sou uma pessoa fraca que foge das querelas
E sempre pedi a Deus uma vida longa pois sou forte

Em minha vida tive todos os privilégios sem arrogância
E por isso sempre despertei ódio e inveja
Fui martirizada e vítima de hacker pela intolerância
Na véspera de Natal inventaram meu suicídio ora-veja!
Mas o pior das perdas foram as difamações em abundância

Só o tempo descobre o que é falso e fingido
E dar forças à verdade pois tudo quanto recebe devolve
O tempo sara as dores do que foi sofrido
Mas não consigo ainda esquecer a dor que me envolve
Nem no manto do esquecimento meus algozes e é muito doído

(Fátima Guimarães)